Chico Buarque diz que “a dor da gente não sai no jornal”, usarei a frase como incentivo para dizer que só a gente sabe contar nossa história. Eu preciso partilhar com você a vida de uma pequena menina do interior baiano. Não sei se vai gostar da história, mas ela aconteceu e me sensibilizou. È a história da menina que aos cinco anos desejou ir para a escola por causa das irmãs mais velhas. Ela via tantos papéis, pastas, farda. Era tudo muito interessante e curioso. Chegou à escola e descobriu que era um lugar escuro com carteiras duplas, bem velha e uma professora que tentava gentilmente amenizar o choro e fazer atividades com os demais. Saudades do tempo que, livre, corria pelos campos, pés no chão, cheias de imaginação inventava histórias onde tinha como personagens as árvores e os animais. Tudo era muita liberdade! Não pode fugir do compromisso firmado. Não poderia esperar mais os sete anos. Teria essa responsabilidade...
Familia imensa. Muitas histórias de bruxas, assombração, folclóricas, os causos no final da tarde promovia noites cheia de medos e gosto de esperar o inicio da outra noite. Era momento de reunião de familia. Apenas o pai ou a mãe narrava. Tudo mais era silêncio e coração palpitante, suspense a espera do próximo acontecimento.
A menina estava crescendo e teve contato com seu primeiro livro. O livro didático, cheio de histórias como a da Galinha Ruiva, o Coelhinho Joca, O sapo. Ela mesma lia... Lia antes de a professora solicitar “a lição”. Conhecia todas as lições e sentia satisfação por isso. O tempo passou... Momento de ir para o ginásio, a primeira proposta era ler Moby Dick. Sabia ler Júlia, Sabrina e Bianca. Leitura proibida. Aprendeu a dá lição, mas ler capítulos e fazer provas era estranho. Não parecia que tinha uma história, mas fragmentos que enchia a turma de medo no momento de “interpretar”. Odiava,com todas as letras, as aulas de Português.
Durante esse período conheceu Poliana Menina, A Ilha Perdida dentre outros. Todos indicados por colegas que contavam a história e diziam como era interessante. Nascia o desejo de conhecer.
Nos tempos de escola conviveu com pessoas apaixonadas por livros. Pareciam conhecer todos. Muitos foram lidos completamente, alguns deixados nas primeiras páginas e ainda outros nunca conhecidos.
Leu durante a graduação, mas eram leituras solicitadas para cumprir a disciplina. Encantou-se com O cortiço, contos de Graciliano Ramos,...
A menina cresceu, virou mãe, e junto com o filho aprendeu a ler histórias infantis, inventar outras semelhantes ao tempo de criança. O filho cresceu e juntos leram muitos livros que as escolas gostam de chamar de paradidáticos: Meu pé de Laranja Lima, Menino de Engenho, O trem de Janelas Acesas, Em busca de mim e muitos outros.
Em meio aos intervalos, e já apaixonada por livros, não dispensou Madame Bovary, Razão e Sensibilidade, Vidas Secas, Macunaíma...
Já professora, levou para os alunos seu prazer pela leitura. Desenvolveu projetos onde os alunos liam, dramatizavam,participavam de saraus e tinham contato direto com livros -Literatura em Minha Casa – e com autores. Em pouco tempo tinha adolescentes lendo e partilhando histórias, apaixonados por poemas, contos e mesmo por clássicos da literatura que faziam parte do projeto.
Atualmente a menina-mulher continua na sua missão de ler e semear esse gosto. Leva consigo a idéia de que é preciso ler o que gosta e também o que não gosta. Percebe que o gosto não se discute, mas se aprimora.